Tenho 59 anos e moro na mais paulista de todas as avenidas - a Avenida Paulista - desde 1964.

Na época era um espaço arborizado, onde conviviam as grandes mansões e alguns espigões de concreto. No prédio em que moro até hoje, havia um grande jardim à frente onde tínhamos bancos para sentar, conversar e encontrar os amigos, para mim, criança ainda, era um espaço para correr, brincar e dar de comer aos lindos peixes que viviam no lago do jardim. Todos os dias meus irmãos, então adolescente, me levavam para brincar naquele lindo jardim. Cheguei a andar de bonde para irmos à Av. Angélica entregar costuras feitas pela minha Mãe, modista na época.

Aos poucos o cenário foi se modificando e vieram abaixo muitas das mansões. Algumas delas, como a dos Matarazzo que foi implodida numa madrugada silenciosa que fez tremer nosso prédio e assustou os moradores dos arredores. Descemos preocupados para ver o que estava ocorrendo e foi possível ver a parte interna da mansão implodida, ficando apenas em pé as paredes externas e a casa dos empregados no fundo da quadra, à R. São Carlos do Pinhal.

A mansão dos Matarazzo, assim como outras, tomaram essa atitude objetivando escapar do tombamento feito pelo patrimônio histórico. Uma perda histórica que deu lugar a mais edifícios e culminou com o deslocamento do centro financeiro para este espigão.

A Avenida foi alargada, perdemos nosso belo jardim e as árvores centenárias que a habitavam, uma perda triste em função do progresso. Progresso que tem seu lado positivo e negativo. Positivo é a facilidade de estar perto de tudo e podermos fazer tudo à pé, pois passamos a ter, além do comércio local, teatros, cinemas e outros espaços culturais, porém, passear,  caminhando por ela, passou a ser mais difícil, sendo comparável ao movimento de uma rua como a 25 de março. 

Trabalhava, e ainda trabalho na PUCSP, e me deslocava facilmente para todos os campi da Universidade, uma grande vantagem.

Casei-me nos anos 80 e tive 2 filhos, hoje com 28 e 26 anos. Quando meus filhos eram pequenos mudei para a Vila Mariana, para uma casa, visando espaço de lazer para as crianças poderem correr, andar de bicicleta, com árvores para subir,  numa rua tranquila que eles pudessem andar sem risco. Nesse período frequentava diariamente a Av. Paulista, pois minha Mãe continuava morando no apartamento em frente ao meu, que estava alugado.

Após esse período voltamos para “casa”, as crianças já adolescentes obtinham a facilidade de sair e voltar para casa com facilidade, de oferecer pouso aos amigos que moravam longe e vinham para os programas, normalmente próximos à nossa região, reunião da turma e ponto de encontro e referência para os passeios com os amigos.

É um local privilegiado pela localização e, como mencionado, há alguns pontos negativos, além do trânsito, nos últimos anos, a situação de nós, moradores esquecidos dessa Avenida veio se complicando ainda mais. Local de todas as manifestações, que já me causaram problemas para retornar para casa, pela impossibilidade de chegar em casa fui obrigada a largar meu carro em locais distantes e voltar a pé, tendo que retornar, muitas vezes tarde da noite para buscar o veículo. 

Outra questão é a “abertura” da Paulista para a população, o que para nós moradores significa sim,  o fechamento da Avenida, o que nos impede de sair de casa aos domingos. Impede, pois o trânsito de veículos é proibido, o que transforma as vias paralelas em vias de trânsito excessivo, inviável para trafegar aos domingos e ter que enfrentar um congestionamento ainda maior do que durante a semana. Além disso, ainda que digam que seja facilitada a entrada e saída de nossas garagens, somos marginalizados e xingados pelos transeuntes, situação humilhante, parecendo que somos nós os invasores. Assim sendo, só podemos sair a pé e de metrô, caso o local que desejamos ir não seja servido pelo metrô, não há como sair de casa. Desde então ficamos presos em casa aos domingos e nos resta apenas caminhar pela Paulista, correndo o risco de assaltos, que aumentaram bastante com o fechamento da Avenida e de sermos atropelados pelas bicicletas e skates que circulam em todas as pistas da avenida.

Além das dificuldades particulares enfrentadas por nós moradores, a Avenida é o principal corredor de acesso aos mais importantes hospitais, o que faz com que as ambulâncias e pessoas que precisam correr para o atendimento nesses hospitais fiquem bastante prejudicadas pelo trânsito excessivo na rua paralela, Ria São Carlos do Pinhal.

Acredito que todos devam ter o direito de frequentar esta linda Avenida porém, os moradores deveriam ser consultados e não ter sido uma decisão arbitraria do Prefeito anterior, com base apenas nos movimentos sociais.

Acho que poderíamos conciliar todos os direitos, mantendo o acesso de lazer aos domingos e feriados na ciclovia, onde se manteriam as bikes, skates e patins, acrescida da pista lateral dos dois lados da Avenida e suas largas calçadas, para os transeuntes com seus cachorros e as pessoas que querem caminhar, como ocorria antes.

Lembrando que, mesmo atualmente com a Avenida inteira à disposição do povo, temos que andar com muito cuidado pelas calçadas para evitarmos ser atropelados pelas bikes e skates.

Amo esta Avenida e agradeço muito a meus pais terem nos trazido para morar aqui. Da mesma forma meus filhos, que não trocam este endereço por nenhum outro.

Maria Inês S. Vieira

Moradora