Alguns meses se passaram desde que resolvi aceitar um desafio dificílimo de escrever sobre o que já li. Pensei, lembrei, recordei e sonhei.

Desde a proposta viajei a centenas de lugares guardados em minha memória, passei por campos, casas, castelos, becos, vielas, cortiços e mansões. Conversei com tantas personagens que deixaram suas marcas em mim, admirei mais os autores que tocaram minha alma e meu coração.

Fiz algumas escolhas, anotações, dei voltas entre leituras leves, densas, científicas, filosóficas ou apenas despretensiosas. Lembrei de Gregório de Matos Guerra, o boca de inferno, que num relâmpago me trouxe Machado de Assis, e rápido cheguei a John Steinbeck. Tive arrepios lembrando de Edgard Allan Poe e sorri com Cecília Meireles por seu “ou isto ou aquilo".

Recostei nas palavras de Robert Frost e Manoel Bandeira, e cochilei pensando na guarânia de Mário Palmério.

De lembrança em lembrança, em verso, prosa, romance ou canção, revivi toda sorte de emoções. Como difícil fosse a tarefa de escolher descobri que as histórias de luta, de superação e de desafios foram as que mais marcaram.

Os meninos da Rua Paulo - Ferenc Molnár, ensinaram a luta pelo pedacinho que era o cobiçado território, ajuda mútua, a coragem de enfrentar os adversários.

A dor e a superação trazidas por A J Cronin em A Cidadela, os riscos de Os Sete Minutos - Irving Wallace e a coragem de Mary Shelley mostrar sua obra em época improvável, mulher a frente de seu tempo, vivendo em uma república, vencendo concurso entre amigos, imortalizando Frankenstein, não podem ser esquecidos.

Estes rabiscos de emoções confusas, atemporais, de estilos, linguagens e idiomas diferentes podem esconder injustiças a autores por quem já me apaixonei em algum momento, mas é de Charlotte Vale Allen por seu Times of Triumph, da trajetória de Leonie Benedict o destaque. Historicamente o livro, que marca o início do romance em 1913, passa por toda a Primeira Guerra Mundial com descritivo que vale a pena conhecer.

A saga vencedora de uma jovem estrangeira, solteira e grávida em Nova York no início do século XX, empreendedora, vai de sua total solidão, até a construção de um império, uma rede de restaurantes, passando por alegrias, vitórias, perdas e dores sem tirar sua força para lutar, o que a torna memorável.

Tão atual o enredo da vida de Leonie Benedict que posso ver essa mocinha nos olhos de refugiadas, de imigrantes e migrantes, de brasileiras, com quem me deparo todos os dias na cidade mundo que é São Paulo.

Tão atual que o olhar triunfante da mulher madura, cheia de marcas da vida que essa personagem se tornou, também posso ver nas bem sucedidas mulheres maduras, que lembram versos de Jorge Aragão - respeite quem soube chegar onde a gente chegou.

Aos autores de tudo o que li e das obras que ainda conhecerei, ousados seres geniais, responsáveis por essa paixão pela leitura, meu máximo respeito.

Às comunidades que se unem para melhorar suas condições de vida, meu máximo respeito.

Às mulheres sonhadoras, lutadoras, meu máximo respeito.

  

Raphaela Galletti

Liderança dos Moradores da Avenida Paulista

 

 


Foto: Leo Martins

Raphaela José Cyrillo Galletti, 

natural da Capital do Estado de São Paulo, advogada e empresária, mantém sua residência e escritório na Avenida Paulista. Graduada em Direito pela FADUSP em 1983, também foi professora e supervisora de ensino do CCAA até 1984, e vice-presidente do Centro de Estudos Tributários e Empresariais entre 1999 e 2003. Desde a graduação atua na área do contencioso e consultoria, além de desenvolver trabalhos administrativos para condomínios.