Ah Poetinha, já não tens mais que chorar, que lamentar saudades e cinzas...

Carlos Lyra já não fica triste na quarta-feira, e nem espera tanto tempo para o carnaval chegar... pois que nas ruas ainda vê o povo alegre a cantar.

Avisem o Poetinha e o Carlinhos, e mesmo o Toquinho que São Paulo tem pré-carnaval, carnaval, e, pós carnaval que ocorre depois da já nem tão triste quarta-feira de cinzas.

Avisem também, contudo, que não há tantas coisas azuis, e que nem há tão grandes promessas de luz (referência “marcha da quarta-feira de cinzas”).

O carnaval de rua em São Paulo passou a ser uma realidade e a brincadeira, que hoje é séria, patrocinada, profissional, deve ser repensada, dentro de sua perspectiva e de acordo com as possibilidades da cidade.

Criamos aqui um binômio a ser estudado: realidade do carnaval de rua x possibilidade da cidade para receber mais de 500 blocos, trios elétricos com alturas que esbarram nos fios elétricos e de dados das ruas, volume e intensidade de som que ultrapassam quaisquer limites dos estudos de manutenção de vida saudável, situações de mobilidade, de transportes públicos, dentre tantas outras.

Dia 16 de abril, mais uma vez o Ministério Público de Habitação e Urbanismo da Capital levou à sua sede os interessados em reunião pública para tratar do balanço do carnaval de 2019 e, das conclusões, iniciar estudos e parâmetros para o carnaval de 2020.

Todos os órgãos públicos envolvidos na organização fizeram uso da palavra apresentado os dados e informações sobre tudo que deu certo e os problemas que enfrentaram. A sociedade civil e representantes dos blocos também se manifestaram apresentando seus problemas.

Sucesso para alguns, verdadeira perturbação para outros, o carnaval de rua precisa ser melhor organizado, embora alguns avanços, como a descentralização tenham ocorrido em 2019, e todos os bairros merecem receber os trios elétricos, ainda que exista resistência dos patrocinadores diretos desses grupos.

A cidade precisa de um estudo maior, mais amplo, não empírico, na base do que deu certo e do que deu errado, mas sim um plano urbanístico, arquitetônico, que já tenha dados sobre altura dos fios em cada trajeto ou rota das propostas pelos blocos em suas inscrições, das dimensões das vias a serem utilizadas e da quantidade de pessoas que podem suportar, da quantidade de moradores fixos por trajetos, dentre outros dados importantes, para que o carnaval de rua de São Paulo possa ocorrer dentro das possibilidades que a cidade tem a oferecer.

A festa não é só patrocínio e lucro. A festa deve ser pensada também para os moradores da cidade, para os foliões e suas necessidades durante o desfile, a festa deve ser pensada em todos os seus aspectos.

Sabemos que os banheiros químicos disponibilizados não foram suficientes para os foliões, mas não sabemos como e em que periodicidade as manutenções foram ou não foram feitas. Sabemos que alguns blocos foram multados, mas a população não conhece o teor dos TACs e nem das multas (fundamentos, indicações de infrações, etc).

Nesse passo há também necessidade de resguardo de áreas que não devem receber blocos como a Avenida Paulista, pois que aberta ao trânsito possibilita mobilidade durante esse período em que diversas outras ruas da região estão interditadas, para os desfiles. 

A Rua Augusta não comporta blocos médios, apenas pequenos, por suas dimensões e características. Os desfiles na Avenida Tiradentes merecem melhor planejamento, e maior estudo para que ocorram sem que as pistas liberadas para trânsito sejam também utilizadas.

E Pinheiros? O que dizer dos problemas? O Largo da Batata e alguns trajetos não se mostraram bons para a folia, que não tiveram condições urbanísticas para abrigarem tantos blocos e foliões. Os problemas foram sendo resolvidos com agilidade, mas a organização de tudo merece estudo que não precise sofrer adaptações para resolver problemas mais graves.

E a República? Ah, sim, que quantidade de blocos circundaram a Praça ? Uns blocos menores, outros maiores, todos se entrelaçando nos trajetos e formando uma grande multidão, um blocão, seguindo para lá e para cá.

Dos bons aspectos e experiências que deram certo e estão organizadas temos os pequenos blocos nos bairros, a região do Ibirapuera, da Avenida Marquês de São Vicente, e Avenida Eng. Luís Carlos Berrini cujos incidentes foram menores.

Na trilha dos bons aspectos estão os termos de ajustamento de conduta que os blocos assinaram e que apenas alguns cumpriram fielmente.

2020 chegará com seu carnaval de rua, repensado, reorganizado, com o transporte público funcionando adequadamente para uso dos foliões, com os problemas experimentados pela organização já resolvidos?

2020 chegará com a esperança que os moradores da cidade não sofram incomodidades, com a esperança que restrições que lhes  atinjam sejam apenas temporárias, sem riscos, sem maiores consequências, sem terem que estar expostos a seis horas  ininterruptas de som não recomendável por nenhum estudo técnico, nem para moradores, nem para trabalhadores, por certo nem para os foliões, sem que os vendedores irregulares continuem as festas nas ruas até altas horas da madrugada com suas tribos baderneiras.

Então a população de São Paulo poderá acompanhar Vinícius de Morais e Carlos Lyra e ouvir Toquinho cantar :

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida
Feliz a cantar
Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor…

Raphaela Galletti

Liderança dos Moradores da Avenida Paulista

 

 


Foto: Leo Martins

Raphaela José Cyrillo Galletti, 

natural da Capital do Estado de São Paulo, advogada e empresária, mantém sua residência e escritório na Avenida Paulista. Graduada em Direito pela FADUSP em 1983, também foi professora e supervisora de ensino do CCAA até 1984, e vice-presidente do Centro de Estudos Tributários e Empresariais entre 1999 e 2003. Desde a graduação atua na área do contencioso e consultoria, além de desenvolver trabalhos administrativos para condomínios.