Marchinhas, bailes em clubes, cordões e bloquinhos de bairros, fantasias, sempre foram as características do carnaval paulistano. Bailes glamurosos, bailinhos nos clubes pequenos, bailes populares nas grandes agremiações, matinês para as crianças estavam dentre as formas de diversões preferidas dos paulistanos nos dias do reinado de Momo.

Os desfiles das escolas de samba eram criticados e por todos os outros cantos se ouvia que São Paulo não tinha samba no pé, não tinha ginga, não era terra de samba.

Na contra mão dos falatórios a cidade, seus artistas, músicos e poetas trilharam caminhos, resistiram, criaram sua própria história e identidade.

Algumas dessas atividades das folhas de Momo, como ele próprio, foram perdidas, engolidas por novidades, e agora a cidade enfrenta as questões dos megablocos e blocos profissionais.

Após o balanço do carnaval 2018 e das questões enfrentadas pelo Ministério Público de Habitação e Urbanismo de São Paulo que delas tomou conhecimento por diversas representações e notícias de apurações de fatos graves ocorridos no período estendido dessas festas, por muitos e sérios motivos a conclusão é no sentido de que a Avenida 23 de Maio não é adequada para o evento e os blocos procuram locais para suas gigantescas apresentações no próximo ano.

Dentre as sugestões listadas a simbólica Avenida Paulista foi lembrada para abrigar esses desfiles nos dias específicos de carnaval, não computados períodos pré e pós carnaval, nos quais há atividades no calendário oficial da cidade.

Mas será mesmo que a famosa avenida tem condições de abrigar os foliões do carnaval de rua?

Será que o bairro e seus entornos conseguem absorver e suportar os desfiles que uma via de passagem como a 23 de Maio não deu conta?

Entre o eixo e entornos até 500m a região abriga 12 hospitais com pronto atendimento, centros cirúrgicos e leitos de internação, inclusive hospital de transplantes do Sistema Único de Saúde, além de ter outros 25 nas proximidades, até 2km.

A avenida tem vários equipamentos culturais, dentre eles seu mais icônico símbolo, o MASP, entre dezenas de outros bens públicos e privados tombados, como a Casa das Rosas, o Conjunto Nacional, tem também dezenas de obras de arte localizadas nos passeios como a escultura de Tomie Ohtake, nas entradas dos condomínios e até fachadas lindas por seus conjuntos arquitetônicos, e mesmo mural em fachada externa como Alabarda de Clóvis Graciano.

Os condomínios residenciais e mistos das décadas de 50 e 60 abrigam milhares de moradores, que têm na emblemática avenida o significado de lar, onde a população idosa já alcança mais de 30% de seu total.

A avenida abriga uma reserva de mata atlântica em seu parque tombado, Parque Tenente Siqueira Campos / Trianon, de conservação e preservação permanentes, de lazer passivo, parque de contemplação, de observação e contato direto com nossa flora e fauna.

 Por tantos e vários outros importantes motivos a Prefeitura Municipal de São Paulo, em 2007, firmou com o Ministério Público Termo de Ajustamento de Conduta, diminuindo para três os eventos na Avenida Paulista: parada LGBTI, corrida de São Silvestre e festa da virada de ano, para as quais há especial preparação sob as regras do referido termo.

A festa de Réveillon de 2018 foi coroada de sucesso por todo empenho da organização e órgãos envolvidos, policiamento, CET, equipamentos de atendimento e socorro, revistas, impedimento de vendas irregulares, mesmo abrigando multidão, condições que não se repetiriam no carnaval por sua complexidade em toda a cidade.

As questões oriundas de atos e manifestações ocorrentes na avenida bem como o Programa Ruas Abertas podem ocorrer sem infração ao mencionado TAC e com respeito às outras normas vigentes, como lei de artistas de rua, lei de uso e ocupação solo, leis de trânsito, sujeitos todos os participantes às sanções nelas previstas em casos de desrespeito.

As travessas e paralelas têm características majoritariamente residenciais, como são os bairros nos entornos e por certo não comportam fluxo de três, cinco milhões de foliões.

Em reunião promovida pelo Ministério Público realizada dia 03 de setembro de 2018, na qualidade de representante da sociedade civil impugnei a indicação da Avenida Paulista como substituta da Avenida 23 de Maio para os desfiles de carnaval, todos, e em especial os megablocos.

A Avenida Paulista não tem condições de abrigar os desfiles de metablocos e blocos profissionais patrocinados, com artistas e celebridades por ser inadequada para tal atividade.

Por ser encantada, por ser emblemática a Avenida é lembrada, por ser mais que uma via precisa ser melhor pensada, por ser mais que um símbolo precisa ser melhor estudada por seus admiradores.

Abaixo encontram-se os links para a leitura ou download do Termo de Ajustamento de Conduta e do Termo de Reunião do dia 03 de setembro de 2018:

 

Raphaela Galletti

Liderança dos Moradores da Avenida Paulista

 

 


Foto: Leo Martins

Raphaela José Cyrillo Galletti, 

natural da Capital do Estado de São Paulo, advogada e empresária, mantém sua residência e escritório na Avenida Paulista. Graduada em Direito pela FADUSP em 1983, também foi professora e supervisora de ensino do CCAA até 1984, e vice-presidente do Centro de Estudos Tributários e Empresariais entre 1999 e 2003. Desde a graduação atua na área do contencioso e consultoria, além de desenvolver trabalhos administrativos para condomínios.