Viver é conviver e conviver é uma arte que exige respeito e urbanidade.

O uso do espaço público como local de convivência e sociabilidade, sem qualquer pretensão científica ou teórica, traz à lembrança os tempos em que as pessoas levavam cadeiras para as calçadas e transformavam a via pública em agradável espaço de convívio.

A violência urbana, a supervalorização dos núcleos familiares, trânsito, ruídos e tantos outros fatores fizeram com que os habitantes das cidades deixassem de fazer uso do espaço urbano para se concentrarem em seus próprios lares, clubes, associações, shoppings, escolhendo uma outra forma de sociabilidade.

A redescoberta do espaço público como meio de lazer e sociabilidade fez os cidadãos olharem de volta para as áreas públicas, e sentirem necessidade de frequentarem mais seus parques e praças, reclamando e clamando por melhores condições nesses locais.

Todo esse movimento contemporâneo de redescoberta das áreas públicas só pode e deve ser entendido em toda sua importância a partir das reivindicações sociais que atendam pedidos e necessidades da própria comunidade.

Todo “apoderamento” de vias públicas, seja por imposição de um grupo, como os conhecidos “pancadões”, seja por meio de lei, decreto, ou imposição do Poder Público, gera conflitos, pois é representação da vontade de alguns se sobrepondo sobre vontades, necessidades e direitos de outros, sem que a sociedade encontre solução.

A imposição de atividades em áreas públicas por vontade de grupos que marcam festas ao ar livre através das redes sociais encontra barreiras no direito de sossego e paz dos habitantes do local onde ocorrem, e ao contrário de promoverem a sociabilidade no espaço público, reservam o local como se deles fossem, demonstrando indiferença e desprezo por todos os outros cidadãos em seu entorno.

Não seria diferente aos domingos e feriados na Avenida Paulista no que se refere ao excesso de ruídos e festas marcadas pelas redes sociais.

De fato, sem promover qualquer sociabilidade, vários grupos marcam apresentações, shows e festas na via, competindo uns com os outros, numa guerra sonora, que longe de promover bom convívio, vira uma competição que não traduz sociabilidade.

Em data recente, através da união dos vários setores da Avenida Paulista, a troca de informações possibilitou a não realização ou dispersão de uma super festa que traria grande perturbação tanto aos residentes, como comerciantes, e mesmo para os frequentadores dominicais, que, ou teriam que aderir ao grupo, ou teriam que se afastar do local, impedidas ainda atividades como uso da ciclovia e ciclofaixa e outras atividades ao ar livre.

A sociabilidade urbana pressupõe a coexistência respeitosa de diferentes segmentos, grupos e tribos, e a interatividade entre todos, não havendo espaço para a imposição da vontade de alguns com desrespeito e indiferença em relação às atividades de outros.

Os espaços públicos são de todos os cidadãos da cidade e seu “apoderamento” deve ser igualitário, sem preconceito contra quem não adere ou manifesta discordância.

A Avenida Paulista não é palco para imposição de gostos e vontades, pois que sua maior qualidade, inclusiva, não pode estar submetida à vontade de alguns grupos que rejeitam o que não está refletido no espelho.

Avenida Paulista: símbolo de inclusão e sociabilidade urbana não tolera desrespeito e desigualdade.

 

Raphaela Galletti

Liderança dos Moradores da Avenida Paulista

 

 


Foto: Leo Martins

Raphaela José Cyrillo Galletti, 

natural da Capital do Estado de São Paulo, advogada e empresária, mantém sua residência e escritório na Avenida Paulista. Graduada em Direito pela FADUSP em 1983, também foi professora e supervisora de ensino do CCAA até 1984, e vice-presidente do Centro de Estudos Tributários e Empresariais entre 1999 e 2003. Desde a graduação atua na área do contencioso e consultoria, além de desenvolver trabalhos administrativos para condomínios.