Há duas semanas falei sobre pichações, concluindo que não se justifica denegrir o que é particular e nem o que é público com pichações, por mais originais e únicas que sejam.

Na semana passada ao falar de saúde e meio ambiente conclamei todos a gritarem pela melhoria de nossos parques, por lutarem por mais árvores, mais verde, contato com a terra.

Nesta semana quero levantar mais uma bandeira - lutemos pela melhoria do nosso espaço.

Quando digo nosso, digo no sentido real, no espaço que me cerca, onde está a minha casa, onde meus filhos vivem, estudam, trabalham.

Não aceitemos a ideia de um espaço privilegiado a 20, 30 km da minha casa. Esta é a ideia que o poder público quer que eu compre, pois é muito mais barato me vender está ideia do que investir na melhoria de cada uma das comunidades. Enquanto sou iludido com o charme de desfilar na rua x, na avenida y, minha rua, meu bairro, meu espaço está abandonado. Estão utilizando áreas públicas para outros fins ou, mesmo, deixando o mato e o lixo tomarem conta delas.

E, ainda ouvimos dos arautos deste poder público embromador, "vamos favelizar a avenida x". Que beleza! Que pensar pequeno! Que desastre para a cidade! Que desrespeito com o povo.

Não podemos admitir a ideia de baixar o nível de nada, pelo contrário, temos que brigar para subir o nível das áreas vulneráveis. 

Eu mereço um espaço limpo, bem cuidado, com boa infraestrutura, com parque, muito verde. Eu mereço respirar um ar melhor, ver meus filhos correrem soltos, com os pés na terra. 

Marina Colasanti brilhantemente escreveu:

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

Podemos reescrever seu brilhante texto:

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em comunidades carentes e a não ter uma infraestrutura decente. E, porque não tem infraestrutura, logo se acostuma a jogar o lixo na rua. E, porque se joga o lixo na rua, logo se acostuma a conviver com ratos, baratas, dengue. E, porque não se sente prazer neste ambiente, a gente se acostuma a fugir dele, buscando um ambiente que nos convenceram ser melhor. E, à medida que se acostuma, esquece que este ambiente dito melhor não tem sombra, não tem ar puro, não tem terra, não tem árvore e nem uma florzinha sequer. Este ambiente dito melhor está no meio de prédios, cercado de concreto, impregnado de poluição. 

E minha comunidade continua abandonada...

A gente se acostuma a deixar por menos, a pensar pequeno, a aceitar alternativas baratas!

A gente se acostuma a ser iludido, a se desvalorizar, a achar que não merece o melhor. 

Gritemos em uníssono "eu mereço"! Lutemos por melhorar nosso espaço, nossa comunidade, nossa cidade...

Lutemos por uma cidade limpa, linda, humanizada.

Kátia Issa Drügg

GD Assessoria


Foto: Ricardo Bozza 

Kátia Issa Drügg, 

professora. Graduada em Pedagogia pela USP. Mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Trabalhou na Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura Municipal de São Paulo de 1969 a 1995. Foi professora em diferentes Faculdades. É palestrante e consultora em RH. Implanta Programas de Gestão em empresas de diferentes segmentos com vistas à obtenção de certificação. É autora de vários artigos e de livros. Atualmente é Diretora Técnica da GD Assessoria e Superintendente do Instituto Paulista Profissionalizante - IPP.