Um ensaio de Bhikhu Parekh, professor emérito de filosofia política nas universidades de Hull e Westminster intitulado “A dor de Gandhi se voltasse à India” nos mostra que, se Gandhi voltasse ao país pelo qual viveu e morreu, ficaria perplexo sobretudo com a corrupção moral e política, sutil e complexa, que vulgariza o país provocando-lhe danos quase irreparáveis.

Ficaria sobretudo estarrecido com a extensão da pobreza, depois de tê-la combatido por toda a vida, depois de ter assinado o projeto Dantwala para forçar o Estado a fixar um salário mínimo decente para reduzir a desigualdade entre ricos e pobres, hoje constataria que 60% dos indianos são obrigados a viver com menos de dois dólares por dia, que a desigualdade social cresce a cada dia, que os privilegiados ostentam descaradamente o seu consumismo extravagante, que os desfavorecidos aceitam tudo isso como um fato natural e inelutável e que o Estado se furta de intervir para impor um mínimo de justiça e igualdade.

Ghandi sofreria ao constatar a ausência de uma visão moral inspiradora. “Sem uma visão, a nação perece”, gostava de repetir. O Mahatma não conseguiria entender por que a Índia nunca se engajou em uma corrida frenética para aumentar o seu PIB de 5 a 7 pontos ao ano e se tornar uma potência econômica.

Segundo Parekh, “o crescimento econômico destrói a natureza, se largada à própria sorte, cria profundas desigualdades, provoca descontentamento e violência entre os desfavorecidos e marginalizados, impõe uma enorme pressão sobre as instituições políticas e sociais que devem enfrentar suas consequências, altera o desenvolvimento geral da sociedade e encoraja o consumismo gratuito. Pode ser, na melhor das hipóteses, um meio para um fim inútil, mas nunca um fim em si. Ghandi iria querer saber quais seriam os grandes ideais morais e políticos que a Índia pretende realizar através do crescimento econômico e de que modo pretende criar uma sociedade justa, humana e compassível.”

Globalmente, mesmo com o progressivo aumento de países democráticos e a difusão da informação e da educação, o mundo se sente preso entre a desorientação e o medo. Aguarda vento favorável, mas não sabe para onde ir, nas palavras do grande escritor e professor de sociologia Domenico De Masi.

O socialismo perdeu, mas o capitalismo não venceu, já dizia Václav Havel. Em qual modelo social, então, devemos nos basear? Por onde começar?

Uma coisa é certa, para projetarmos o nosso futuro, devemos fazer uma reflexão sobre o nosso passado. “Nenhum vento é favorável para o marujo que não sabe para onde ir”, escreveu Sêneca.

Marco Antonio Jordão Magalhães

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Foto: Fernanda Magalhães 

Marco Antonio Jordão Magalhães, 

paulistano, empreendedor e empresário, possui MBA pela Michigan University na Michigan Ross School of Business. Sua carreira de mais de 30 anos é divida em duas fases, como colaborador premiado na área de marketing em multinacionais automobilísticas e como empreendedor conduzindo ideias, inspirando clientes e dirigindo uma equipe global de web e marketing. Mora em São Paulo e ama a Avenida Paulista, onde aplica parte dos serviços de integração digital, social e design que fazem a diferença para seus clientes em New York, San Francisco, Toronto, Londres, Buenos Aires e São Paulo.